Eixo Memória LGBTQIAPN+
Luto e celebração das pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ de Campinas - SP
A memória não é um território neutro. Quando nos debruçamos sobre as existências LGBTQIAPN+, o ato de lembrar torna-se, inevitavelmente, um ato político. O patrimônio não se restringe aos bens materiais consagrados pelo tempo; antes, compreende também tudo aquilo que, embora imaterial ou afetivo, carrega significado e produz vínculos, para as histórias que foram sistematicamente relegadas às margens dos arquivos oficiais. É nesse entre-lugar que se inscreve a Caixa-Museu Memória LGBTQIAPN+ de Campinas: um dispositivo que desafia o apagamento estrutural das memórias dissidentes e propõe outras formas de narrar, de sentir e de significar o passado.
O luto, na perspectiva queer, assume contornos singulares. Não se trata apenas de elaborar a perda, mas de recusar o esquecimento como destino final. O luto pode ser compreendido como um campo de forças no qual os mortos não estão simplesmente ausentes, mas atuam, interpelam e exigem respostas dos vivos. Como nos lembra a antropóloga Jeanne Favret-Saada (2012), o luto é também um campo no qual os mortos continuam a agir sobre os vivos. O tema da caixa-museu nos convida a pensar no luto como uma experiência que expõe nossa vulnerabilidade compartilhada e nossa interdependência radical. Quando a comunidade LGBTQIAPN+ perde um de seus membros, perde-se também um pedaço de sua história, de sua luta, de sua poética de existir. Celebrar, então, torna-se um gesto de resistência: é afirmar que aquelas vidas importaram, que seus impactos reverberam e que suas heranças seguem vivas nas práticas cotidianas de quem ficou.
A Caixa-Museu que ora se apresenta é fruto do trabalho de sete pesquisadores LGBTQIAPN+ que se dedicaram a pesquisar e a reverenciar as trajetórias de sete pessoas da comunidade campineira que já partiram: Paulo Roberto Ottoni, Janaína Lima, Jady Mitchells, Géia Borghi, Duda Nunes (Morsa), Wescley Ribeiro e Agnes Lemos. Cada objeto que compõe este acervo — seja ele uma criação autoral ou uma referência material à história do pesquisado — funciona como um impulsionador de narrativas, um artefato que convoca à memória e à palavra. Através deles, emergem temas que atravessaram essas vidas: a poesia e os afetos, a arte Drag, as identidades trans, os processos de transição, o esporte, a educação e a luta pelos direitos das pessoas LGBTQIAPN+.
A escolha dos objetos como suporte memorial ressoa com o que a museologia contemporânea denomina “patrimônios emergentes” — expressões culturais que, ao escaparem dos enquadramentos clássicos, nos convidam a exercitar outros modos de olhar, escutar e produzir conhecimento. Como nos lembram Santacana e Hernández (2006), a museologia crítica nos convida a projetar outros ambientes para a socialização do conhecimento. Nesta caixa, o objeto não é mero testemunho mudo; ele é convocação, é potência narrativa, é matéria que abriga afeto. Ele nos lembra que as histórias LGBTQIAPN+ são feitas de gestos cotidianos, de corpos que ocuparam espaços, de vozes que ecoaram em meio ao silêncio imposto.
Ao abrir esta caixa, não estamos apenas diante de objetos. Estamos diante de convites: para lembrar, para sentir, para chorar e para celebrar. Estamos diante da urgência de produzir outras narrativas, de ocupar os museus com nossas presenças e de afirmar que nossas histórias merecem ser contadas, recontadas e vividas. Que esta Caixa-Museu seja, então, um lugar de passagem: onde os mortos possam, através das histórias que carregamos, continuar a habitar o mundo.
Coordenação Bella Tozini
Ficha catalográfica da caixa-museu
Nome do Objeto: Caixa-Museu Eixo Memória LGBTQIAPN+
Classificação: Artes Visuais; Artes Plásticas
Autoria: Bella Tozini, Artur Strauch Pinto Dantas Cunha, Bruna Franzolin, Cibele Rodrigues Souza, Cris Akemi Tanaka, Dani Mendes, Eduardo Moura Leite Pereira e Luís Cláudio Mendes
Data de Produção: 14/03/2026
Local de Produção: São Paulo, Brasil, Campinas
Dimensões: 35 cm x 44,7 cm x 9 cm
Quantidade de Objetos internos: 9
Ficha catalográfica dos objetos da caixa-museu
01 - Fotolivro
Pesquisador: Artur Strauch Pinto Dantas Cunha
Pessoa pesquisada: Paulo Roberto Ottoni (1950–2007)
Ficha Catalográfica:
Nome do Objeto: Fotolivro
Classificação: Artes Visuais; Publicação
Autoria: Artur Strauch Pinto Dantas Cunha
Data de Produção: 2026
Local de Produção: São Paulo, Brasil, Campinas
Dimensões: 14 cm x 21,6 cm
Técnica/Material: Fotolivro impresso a laser ou jato de tinta em papel e encadernação com costura
Descrição e Histórico:
Fotolivro concebido a partir do Fundo “Paulo Ottoni” do Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da Unicamp. Reúne a correspondência de Paulo em diálogo com recortes de jornais, panfletos, cartões e outros materiais do seu acervo pessoal. Livro impresso em formato de papel de carta com gramatura 90g/m². Capa do livro, no formato de envelope de carta, confeccionada em papel Color Plus preto, com gramatura de 180g/m², miolo costurado.diretamente a capa.
Biografia de Paulo Roberto Ottoni (1950–2007)
Paulo Roberto Ottoni foi professor universitário, pesquisador e ativista que uniu sua trajetória acadêmica na Linguística à militância pelos direitos da comunidade LGBTQIAPN+ durante a redemocratização do Brasil. Nascido em Campinas (SP) em 1950, formou-se em Linguística e Ciências Sociais pela Unicamp, onde se tornou docente e pioneiro na tradução e difusão do pensamento de filósofos como Derrida e Austin no Brasil, defendendo a tradução como ato criativo e transformador em obras como Tradução: a Prática da Diferença (1998) e Tradução manifesta(2005). Sua pesquisa de graduação já apontava para seu compromisso social, ao investigar a prostituição de michês e travestis em Campinas, analisando gênero e sexualidade no bairro Jardim Itatinga, enquanto seu contato com o movimento homófilo francês e sua atuação no Grupo SOMOS – primeira organização de defesa dos direitos homossexuais em São Paulo – consolidaram sua formação política como ativista.
Além da luta LGBTQIAPN+, Ottoni engajou-se na defesa da liberdade de imprensa durante o fim da Ditadura Militar, participando de congressos nacionais de jornalistas, e também atuou por direitos trabalhistas e pela inclusão da educação sexual nas escolas. Faleceu em 2007, mas seu legado permanece vivo no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da Unicamp, onde o “Fundo Paulo Ottoni” reúne documentos, entrevistas e registros de reuniões políticas que ele próprio doou em 2002 – material essencial para pesquisadores que estudam a história dos movimentos sociais e a evolução dos estudos da linguagem no Brasil.
02 - Registro Acadêmico
Pesquisador: Luís Cláudio Mendes
Pessoa pesquisada: Janaína Lima (1975 – 2021)
Ficha Catalográfica:
Nome do Objeto: Registro Acadêmico
Classificação: Documento textual; Uso pessoal
Autoria: Luís Cláudio Mendes
Data de Produção: 2026
Local de Produção: São Paulo, Brasil, Campinas
Dimensões: 5,4 cm x 8,6 cm
Descrição e Histórico:
Réplica de Registro Acadêmico da ativista negra e travesti Janaína Lima impresso em PVC adesivado. O material remete a práticas burocráticasde instituições brasileiras (como universidades e ambientes trabalhistas) e suas definições de códigos culturais (nome de batismo, sexo, gênero, número de identidade) que padronizam vidas humanas e, frente a isso, uma maneira pela qual travestis e transexuais, no Brasil, institucionalmente, “hackeiam” estes padrões através do “nome social”.
Biografia de Janaína Lima (1975 - 2021)
Janaína Lima foi uma travesti, pedagoga e militante LGBTQIA+ que transformou sua experiência de vida e enfrentamento ao preconceito em uma trajetória de luta por cidadania e direitos humanos no Brasil. Nascida na Paraíba em 1975 e radicada em Campinas (SP), formou-se em Pedagogia e atuou em diversas frentes, incluindo a educação social e o trabalho sexual, sempre com orgulho de sua identidade. Sua militância a levou a ocupar espaços históricos de poder: foi coordenadora adjunta de Políticas LGBTI da Prefeitura de São Paulo, coordenou o Programa Transcidadania, trabalhou no Centro de Referência Brunna Valin e tornou-se a primeira presidenta travesti do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual de São Paulo, além de integrar a ANTRA e palestrar em todo o país sobre gênero e travestilidade.
Seu legado permanece vivo por meio de homenagens concretas, como o Centro de Referência de Saúde Integral para Travestis e Transexuais “Janaína Lima” em São Paulo e o prêmio que leva seu nome, destinado a reconhecer ativistas LGBTQIA+. Falecida em 2021, aos 45 anos, vítima de um ataque cardíaco, sua morte também serviu como alerta para as desigualdades estruturais que ainda excluem travestis – como lembrou sua amiga Suzy, que mesmo formada em Pedagogia nunca conseguiu atuar na área por ser travesti. Janaína inspira, assim, tanto a construção de políticas públicas de acolhimento quanto a necessária reflexão sobre o preconceito cotidiano que ceifa vidas jovens e talentosas.
03 - Raio X de uma Sereia
Pesquisador: Luís Cláudio Mendes
Pessoa pesquisada: Janaína Lima (1975 – 2021)
Ficha Catalográfica:
Nome do Objeto: Raio X de uma Sereia
Classificação: Artes Visuais; Artes Plásticas
Autoria: Luís Cláudio Mendes
Data de Produção: 2026
Local de Produção: São Paulo, Brasil, Campinas
Dimensões: 10 cm x 5 cm x 3 cm
Descrição e Histórico:
Lata de atum pintada manualmente com tinta spray prateada, revestida internamente com pedras e cola para atribuir peso. No lugar onde ficava a tampa e o lacre original da lata, foram posicionadas ilustrações sobrepostas de um pequeno esqueleto de sereia, feito manualmente e com caneta em gel preta sob papel manteiga. Suas características intrínsecas evidenciam técnica artesanal e domínio de processos gráficos, enquanto, extrinsecamente, remete à práticas tradicionais da indústria alimentícia para a longa preservação de comida (especialmente em contextos de guerra) e à especificidades antropológicas dos cotidianos travesti no Brasil, representando a produção cultural e epistêmica de vida frente a morte desde uma perspectiva localizada nas comunidades LGBTQIAPN+.
Biografia de Janaína Lima (1975 - 2021)
Janaína Lima foi uma travesti, pedagoga e militante LGBTQIA+ que transformou sua experiência de vida e enfrentamento ao preconceito em uma trajetória de luta por cidadania e direitos humanos no Brasil. Nascida na Paraíba em 1975 e radicada em Campinas (SP), formou-se em Pedagogia e atuou em diversas frentes, incluindo a educação social e o trabalho sexual, sempre com orgulho de sua identidade. Sua militância a levou a ocupar espaços históricos de poder: foi coordenadora adjunta de Políticas LGBTI da Prefeitura de São Paulo, coordenou o Programa Transcidadania, trabalhou no Centro de Referência Brunna Valin e tornou-se a primeira presidenta travesti do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual de São Paulo, além de integrar a ANTRA e palestrar em todo o país sobre gênero e travestilidade.
Seu legado permanece vivo por meio de homenagens concretas, como o Centro de Referência de Saúde Integral para Travestis e Transexuais “Janaína Lima” em São Paulo e o prêmio que leva seu nome, destinado a reconhecer ativistas LGBTQIA+. Falecida em 2021, aos 45 anos, vítima de um ataque cardíaco, sua morte também serviu como alerta para as desigualdades estruturais que ainda excluem travestis – como lembrou sua amiga Suzy, que mesmo formada em Pedagogia nunca conseguiu atuar na área por ser travesti. Janaína inspira, assim, tanto a construção de políticas públicas de acolhimento quanto a necessária reflexão sobre o preconceito cotidiano que ceifa vidas jovens e talentosas.
04 - Boneca 3D Jady Mitchells
Pesquisadora: Bruna Franzolin
Pessoa pesquisada: Jady Mitchells Lopes Gabriel (1993-2025)
Ficha Catalográfica:
Nome do Objeto: Boneca 3D Jady Mitchells
Classificação: Boneca produzida em impressão 3D; Figura em miniatura
Autoria:
Data de Produção: 2026
Local de Produção: São Paulo, Brasil, Campinas
Dimensões: 13 cm x 7 cm x 6 cm
Descrição e Histórico:
Boneca tridimensional produzida em impressão 3D, representando Jady Mitchells num suporte hexagonal rosa, cabelo loiro, vestido rosa e botas brancas. Peça elaborada sob encomenda a partir de fotografia de referência e executada por inspiração de uma história afetiva contada por Jady sobre sua madrinha a presenteando com uma boneca parecida em seus 15 anos.
Biografia de Jady Mitchells Lopes Gabriel (1993-2025)
Jady Mitchells foi a primeira intérprete de LIBRAS trans do estado de São Paulo, precursora na luta pela acessibilidade e uma forte representante da história LGBTQIAPN+ de Campinas. Nascida em 1993 na cidade, cresceu no bairro do Oziel em uma família amorosa e apoiadora, que a preparou para a resistência – a perda do pai, analfabeto, impactou profundamente sua busca pela linguagem e comunicação. Iniciou sua transição aos 12 anos e, ao longo da juventude, interessou-se pela LIBRAS primeiro para se comunicar com o namorado de uma amiga e depois durante a graduação em Psicologia, percebendo a potência desse elo entre profissional e paciente. Aos 23 anos, formou-se em um curso de 10 meses e rapidamente se destacou, atuando como voluntária, monitora e, a partir de 2017, à frente do grupo “Encantar com as Mãos”, um projeto inovador de coral em LIBRAS que reuniu cerca de 20 pessoas por cinco anos.
Sua atuação profissional a levou a interpretar em LIBRAS em eventos de grande visibilidade, como o discurso da Deputada Érika Hilton no Roda Viva, o Teleton, rodeios, novelas e a Parada LGBTQIAPN+ de Campinas, ao mesmo tempo em que conquistava mais de 100 mil seguidores como influenciadora digital, combinando música, dança, maquiagem e LIBRAS. Apesar do preconceito enfrentado pela comunidade trans, Jady alcançou lugares desafiadores com excelência, segundo sua amiga e professora Beth, e vivia o auge profissional e pessoal – tendo reformado a casa da mãe para dar suporte à família – quando faleceu precocemente em 11 de outubro de 2025, aos 32 anos, devido a complicações de saúde. Sua partida deixou uma perda imensa em Campinas, não apenas no trabalho profissional, mas na vivência, no brilho e na parceria que levava ao cotidiano de todos que tiveram o privilégio de conviver com sua história transformadora.
05 - Tridimensionalidade de uma mulher
Pesquisador: Cris Tanaka
Pessoa pesquisada: Géia Borghi (1966- 2014)
Ficha Catalográfica:
Nome do Objeto: Tridimensionalidade de uma mulher
Classificação: Cubo mágico
Autoria: Cris Tanaka
Data de Produção: 2026
Local de Produção: São Paulo, Brasil, Campinas e Sumaré
Dimensões: 55mm3, 74 g.
Descrição e Histórico:
Material produzido especialmente para o projeto Caixas-Museu, no qual tem como objetivo, de forma mais lúdica, demonstrar que uma pessoa não é apenas uma face bidimensional. Géia não era apenas uma mulher trans, era Drag, era filha, era técnica em enfermagem, era diretora executiva de uma boate LGBTQIA+, entre muitas outras coisas.
Biografia de Géia Borghi (1966- 2014)
Géia, nome artístico de uma artista plástica e técnica em enfermagem transsexual nascida em 1966, atuou por 20 anos no Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas, onde era muito querida na ala pediátrica. Paralelamente à profissão na saúde, construiu uma trajetória marcante como performista e drag queen, famosa por suas apresentações na boate Subway e como diretora artística de outra casa noturna. Seu nome artístico surgiu a partir do pseudônimo “G”, transformado em Géia por sugestão de um amigo, e sua atuação nos palcos a tornou uma referência no meio drag campineiro.
Seu legado permanece vivo através de relatos de outras drag queens, como Jaqueline Furacão, que a descreveu como uma figura acolhedora e materna em um meio frequentemente marcado por rivalidade e alfinetadas, e Paula Ferreira, do Queencast, que registrou uma entrevista com ela. Além disso, sua morte inspirou diretamente o curta-metragem “Eu, Samylly Vellaskes”, de Rodrigo Lara e Maria Carolina Castilho, que contam a vida de outro artista drag. Géia teve sua vida interrompida pela transfobia, mas seu legado de acolhimento, generosidade com novatas e atuação tanto na saúde quanto na arte segue como inspiração para a comunidade LGBTQIAPN+ de Campinas.
06 - Batom vermelho de performance (Morsa)
Pesquisador: Cibele Rodrigues
Pessoa pesquisada: Duda Nunes/ Morsa (1968- 2025)
Ficha Catalográfica:
Nome do Objeto: Batom vermelho de performance (Morsa)
Classificação: Objeto
Autoria: Cibele Rodrigues
Data de Produção: 2026
Local de Produção: São Paulo, Brasil, Campinas
Dimensões: 8 cm x 3 cm x 3 cm
Descrição e Histórico:
Batom vermelho inspirado no tipo de maquiagem utilizado por Duda Nunes (Morsa) em suas performances na cena drag campineira. O objeto representa o momento de transformação que antecede a entrada em cena, marcando a passagem entre a vida cotidiana e a construção da persona artística. Na cultura drag, o batom não é apenas recurso estético, mas gesto performativo que redefine o rosto, amplia expressões e potencializa a comunicação com o público. O vermelho, historicamente associado à intensidade, ao exagero e à teatralidade, reforça a presença cênica e o humor característicos da artista.
Biografia de Duda Nunes/ Morsa (1968- 2025)
Duda Nunes, conhecida artisticamente como Morsa, foi uma das figuras mais importantes da cena drag e LGBTQIAPN+ de Campinas, onde viveu e construiu sua trajetória por décadas. Com uma estética marcada pelo exagero, caricatura e comicidade popular, atuou em boates, bares e espaços de sociabilidade da cidade nas décadas de 1980, 1990 e 2000, tornando-se presença constante na noite campineira e ocupando esses territórios como espaços de pertencimento e resistência em um contexto de estigmas e exclusão. Sua popularidade ultrapassou as fronteiras do interior paulista, levando-a a participar de programas de televisão de grande audiência como o Programa do Bolinha e atrações do SBT, mas ela sempre manteve forte vínculo com Campinas, onde residia e retornava frequentemente aos palcos locais, preservando sua relação direta com o público que acompanhou sua formação artística.
Além da carreira artística, Morsa era reconhecida por seu humor afiado, espontaneidade e postura acolhedora com artistas mais jovens, funcionando como referência e inspiração para novas gerações de drags da região. Sua vida, no entanto, também foi marcada por vulnerabilidades: perdas familiares significativas, a perda total de sua casa em um incêndio – que destruiu memórias e parte de sua trajetória – e problemas de saúde como DPOC e enfisema pulmonar, que limitaram sua atuação nos últimos anos. Duda faleceu em 2025, aos 57 anos, mas permanece como símbolo de uma geração de artistas que fizeram da noite, do riso e da performance territórios de resistência, criação e vida, deixando um legado duradouro na memória afetiva e cultural de Campinas.
07 - Saio de Leque
Pesquisador: Eduardo Moura Leite
Pessoa pesquisada: Wescley Ribeiro
Ficha Catalográfica:
Nome do Objeto: Saio de Leque
Classificação: Objeto
Autoria: Eduardo Moura Leite
Produção: Carolina Lobato e Eduardo Leite
Data de Produção: 2026
Local de Produção: São Paulo, Brasil, Campinas
Dimensões: Leque grande com altura de 35cm x largura de 66cm
Descrição e Histórico:
Ilustração digital impresso em nylon, com sobreposições de colagem digital contendo imagem que refere-se a pessoa retratada, com desenhos da identidade visual do projeto com os escrtitos de “ Hoje saio de Leque para fazer ventar o amanhã”.
Biografia de Wescley Ribeiro
Wescley, habitante de Campinas e veia pulsante da comunidade LGBTQIAPN+, foi uma figura marcada pela extravagância, liberdade e presença acolhedora. Desde criança hiperativo e criativo, já na adolescência montava suas próprias roupas com a ajuda da mãe, que o acolheu em sua arte entre linhas e agulhas. Trabalhou por 12 anos como hostess no KITNET bar, espaço conhecido como “Casinha” e referência para a comunidade queer, periférica e provocadora de Campinas, onde era lembrado pelo sorriso, pelos elogios e pela capacidade de fazer cada pessoa se sentir especial. Wescley também se via como drag queen em alguns momentos, e sonhava em ser estilista, desenhando croquís e criando um universo habitável para sua essência – sempre com leques, saias longas e maquiagem impecável como marcas de sua presença noturna.
Para além da noite, Wes trabalhou no McDonald’s de Barão Geraldo, onde era um bom parceiro de trabalho que incluía a todos independentemente de gênero, sexualidade ou opinião. Sua trajetória foi encerrada de forma abrupta por um quadro depressivo, num contexto em que a saúde mental da população LGBTI+ é especialmente vulnerável devido à discriminação e ao estigma social – dados que apontam o Brasil como líder na América Latina em prevalência de ansiedade e depressão. Wescley deixa um legado que se traduz no estalar de um leque, na brisa que afaga a pele e no balanço no ritmo da vida: força de quem encarou o mundo com a cara no vento, alma de afeto e semente plural de amor e saudade. Seu irmão Wendel resume bem: “Meu irmão sempre tinha alguém amável e alguém que amava por perto” – e é assim que Wes permanece: presente no coração de quem o viveu e o ama.
08 - Zine Saio de Leque
Pesquisador: Eduardo Moura Leite
Pessoa pesquisada: Wescley Ribeiro
Ficha Catalográfica:
Nome do Objeto: Zine Saio de Leque
Classificação: Publicação
Autoria: Eduardo Moura Leite
Produção: Carolina Lobato e Eduardo Leite
Data de Produção: 2026
Local de Produção: São Paulo, Brasil, Campinas
Dimensões: A4 (Recortada em formato de
leque)
Descrição e Histórico:
Fotos de Wescley Ribeiro em Drag/Transformista e relatos de seu irmão, amigos com poesia. Fontes: Projeto Caixas Museu, Bacia Cultural, Kitnet Bar, projeto de pesquisa Eixo LGBT+ Caixas Museu (2026) e entrevistas.
Biografia de Wescley Ribeiro
Wescley, habitante de Campinas e veia pulsante da comunidade LGBTQIAPN+, foi uma figura marcada pela extravagância, liberdade e presença acolhedora. Desde criança hiperativo e criativo, já na adolescência montava suas próprias roupas com a ajuda da mãe, que o acolheu em sua arte entre linhas e agulhas. Trabalhou por 12 anos como hostess no KITNET bar, espaço conhecido como “Casinha” e referência para a comunidade queer, periférica e provocadora de Campinas, onde era lembrado pelo sorriso, pelos elogios e pela capacidade de fazer cada pessoa se sentir especial. Wescley também se via como drag queen em alguns momentos, e sonhava em ser estilista, desenhando croquís e criando um universo habitável para sua essência – sempre com leques, saias longas e maquiagem impecável como marcas de sua presença noturna.
Para além da noite, Wes trabalhou no McDonald’s de Barão Geraldo, onde era um bom parceiro de trabalho que incluía a todos independentemente de gênero, sexualidade ou opinião. Sua trajetória foi encerrada de forma abrupta por um quadro depressivo, num contexto em que a saúde mental da população LGBTI+ é especialmente vulnerável devido à discriminação e ao estigma social – dados que apontam o Brasil como líder na América Latina em prevalência de ansiedade e depressão. Wescley deixa um legado que se traduz no estalar de um leque, na brisa que afaga a pele e no balanço no ritmo da vida: força de quem encarou o mundo com a cara no vento, alma de afeto e semente plural de amor e saudade. Seu irmão Wendel resume bem: “Meu irmão sempre tinha alguém amável e alguém que amava por perto” – e é assim que Wes permanece: presente no coração de quem o viveu e o ama.
09 - Você transiciona para onde? (Stencil)
Pesquisador: Dani Mendes
Pessoa pesquisada: Agnes Lemos (1999 – 2025)
Ficha Catalográfica:
Nome do Objeto: Você transiciona para onde? (Stencil)
Classificação: Artes visuais, stencil
Autoria do poema: Agnes Lemos
Autoria do stencil: Dani Mendes
Data de Produção: 2026
Local de Produção: São Paulo, Brasil, Campinas
Dimensões: 148 x 210 mm
Descrição e Histórico:
Um estêncil do trecho final de “Quando a gente transiciona tudo transiciona”, poema do ativista Agnes Lemos, publicado em suas redes sociais em 2022
Biografia de Agnes Lemos (1999 - 2025)
Agnes Rodrigues Lemos, nascido em 1999 em Campinas, foi educador, pesquisador, cabeleireiro, drag king e ativista da comunidade LGBTQIAPN+. Cursou Ciências Sociais na Unicamp, onde ajudou a fundar o Núcleo de Consciência Trans (NTC) e atuou na luta por acesso à educação e ao esporte para pessoas trans, travestis e não-bináries. Ao se perceber como homem transgênero durante a faculdade, iniciou sua transição e seu ativismo, tornando-se co-fundador do Pogonas FTC, coletivo esportivo que oferece treinos gratuitos de vôlei e futsal em Campinas. Como pesquisador, produziu artigos científicos, vídeos educativos e palestras, defendendo que a produção de conhecimento qualificado sobre pautas queer deve partir das vivências da comunidade, e foi peça-chave na luta pela implementação de cotas para pessoas trans na Unicamp.
Como educador, deu aulas em escolas públicas, realizou mentorias gratuitas e também atuou como cabeleireiro para colegas trans, além de desfilar em ballrooms com o vulgo Mista Pusse. Agnes faleceu em 25 de janeiro de 2025, pouco antes do Dia Nacional da Visibilidade Trans, e seu nome tornou-se símbolo de resistência – “Agnes presente!” ecoou em homenagens como amistosos de futsal, mentorias para calouros trans da Unicamp e ballrooms pela visibilidade transmasc. Mais do que luto, essas celebrações reafirmam sua vivência e existência, transformando a dor em um ato político de afirmação: Agnes segue presente nas causas que ajudou a construir e nos corações de quem teve o privilégio de cruzar seu caminho.
Pesquisadores
Bella Tozini
Coordenadora
É artista visual e pesquisadora, produtora cultural, curadora interdisciplinar que atua no interior paulista. Seus trabalhos abordam questões de identidades, corpos, diversidade, territórios e deslocamentos. Graduada em Comunicação Social/Cinema pela FAAP (2002) possui uma Especialização pela Escola de Cinema de Lódz, na Polônia (2004) e é mestra em Artes Visuais pelo PPGAV IA Unicamp (2018).
Artur Strauch Pinto Dantas Cunha
Pesquisador
Nascido em Salvador (BA) em 2001, é artista visual e pesquisador graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), desde 2025. Investiga a errância enquanto prática estética, analisando o caminhar e a produção de artistas nômades.
Bruna Franzolin
Pesquisadora
Nascida em São Paulo,estudante de História da Arte pela Unifesp, atua na área cultural com formação profissional em Produção e Mediação Cultural em museus e espaços de Cultura. Realizou mediações no MASP e no Edifício Oswald de Andrade. Dedica-se a pesquisas sobre museus, curadoria e produção, com interesse na compreensão do outro e dos olhares singulares sobre o mundo.
Dani Mendes Candido
Pesquisador
Artista trans em início de trajetória, estudante de Artes Visuais na Unicamp. Explora em suas obras a dicotomia entre animal e humano, a memória e o conceito de identidade. Realiza uma pesquisa acerca do luto e suas representações. Expôs no Festival do Instituto de Artes.
Eduardo Leite
Pesquisador
Meu nome é Eduardo Leite, trabalho com o nome artístico ABSTRAT0, tenho 28 anos. Formando em Pedagogia (2026) e trabalho com os segmentos artísticos de design, fotografia, produtor cultural e artista gráfico.Acredito no compartilhamento e potência da arte como um todo em seus respectivos nichos e segmentos.
Luís Cláudio Mendes
Pesquisadora
Graduando em Ciências Sociais pela Unicamp, pesquisa antropologia, relações raciais, gênero e sexualidade. Investiga Campinas pela ótica das “bichas-pretas”, articulando estudos urbanos, queer e negros. Atuou no Museu de Arte Contemporânea de Campinas MACC e no Rotas Afro nas Escolas em Campinas.

